quarta-feira, 2 de julho de 2014

O primeiro V-10

Boas pessoal,

Quando o assunto são os motores de arquitetura de dez cilindros em V, logo vem à cabeça da maioria dos apaionados por carros, o BMW M5 E60, ou mesmo o Dodge Viper, para os mais novos, o Lexus LFA e a Lamborghini Gallardo.

O Honda V10

Para a minha geração, entre os que gostam de corridas, lembra-se logo dos motores V10 Honda e Renault utilizados na Fórmula 1. O motor Honda V10 montado nos carros da equipe McLaren, dominaram instantaneamente a F1, logo após o banimento dos motores turbos no fim de 1988, arrebatando os títulos de 1989 e 1990.

O Renault V10


Para a temporada de 1990, o então piloto da McLaren, Alain Prost transfere-se para a Ferrari que desde o retorno forçado aos motores aspirados, vinha utilizando propulsores V12. Coincidência ou não, a Honda, que vinha obtendo muito sucesso com seus V10,  opta por um novo motor V12 para a McLaren em 1991, um motor mais potente que o anterior V10, porém mais pesado e beberrão também.

Motor Ferrari V12 de 1990


Nas 4 primeiras corridas de 1991, todos acreditam que a Honda tenha acertado o caminho tomado, com seu novo V12, uma vez que Ayrton Senna leva o McLaren MP4/6, equipado com o motor Honda V12, a 4 vitórias seguidas. Daí para frente porém, outra equipe, a Williams sob o comando de Nigel Mansell, equipada com os famosos Renault V10 aumenta seu domínio corrida a corrida, culminando com o título de 1992. 

Honda V12


O motor V12 da Honda dura somente até o fim de 1992, quando a montadora japonesa decide suspender o fornecimento de motores para a F1. Certamente a troca erronea de motores V10 para V12 em 1991 foi um dos fatores preponderantes para essa decisão. Em contrapartida a Renault que juntamente com a Honda vinha investindo nos V10 para a F1 inicia um grande domínio à partir de 1992, ganhando também os títulos de 1993 e de 1995 a 1997. A própria Scuderia Ferrari, famosa por seus V12 na F1 abandona a aclamada arquitetura em favor dos V10 em 1996.

Em 1995 com a redução de deslocamento de 3.5L para 3.0L, a maioria das equipas de F1 já eram impulsionadas por motores V10. À partir de 1998 até 2005, quando os motores V10 foram banidos da F1 por conta de um novo regulamento, todas as equipes passaram a utilizar o V10.

Então fica a pergunta quem seria a primeira fabricante a adotar os motores V10? Honda ou Renault? Nenhuma das duas...

O primeiro motor V10 começou a ser projetado ainda 1984 e construido em 1986 pela Alfa Romeo, estava dentro de todas as regras para ser utilizado na F1, e provavelmente o seria, pela equipe Ligier que em 1986-87 iniciou parceria com a Alfa Romeo para fornecimento de motores, esse programa Alfa-Ligier foi interrompido abruptamente quando da compra da Alfa Romeo pela FIAT, em Novembro de 1986. Sobrou para o pioneiro V10 Alfa Romeo, ser utilizado em uma nova categoria, criada pela FIA e por Bernie Ecclestone, chamada de Formula S, "S" de Silhouette. Essa nova categoria consistia na utlização do powertrain, pneus e toda a tecnologia da F1 da época, aliado ao shape precisamente igual ao dos carros à venda então.

O Alfa Romeo V10 de 1986


Pode-se notar que a idéia da FIA e de Bernie Ecclestone em atrair os grandes fabricantes de carro para o mundo do Motorport, não era coisa dos anos 90 e 2000, e a Fórmula S foi mais uma das tentativas. A idéia de se realizar uma categoria onde o público se identificasse automaticamente com os carror que podia comprar poderia parecer genial e lógica para os anos 90, época em que tivemos categorias de turismo de grande sucesso em âmbito mundial, como o DTM, o BTCC e o ITC, mas para o meio dos anos 80 a idéia não arrebanhou muitos adeptos, a BMW chegou a declarar que tinha interesse em participar do certame, a Alfa Romeo acreditou e construiu um carro, o 164 Procar onde o V10 foi instalado.

O 164 Procar


A construção do carro ficou por conta da MRD - Motor Racing Developments - mais conhecida como Brabham, equipe onde Nelson Piquet havia ganhado os 2 primeiros de seus 3 títulos, em 1981 e 1983.



A cooperação entre Brabham e a Alfa Romeo não eram inéditas, em 1976, convencido que os motores de 12 cilindros eram o futuro em termos de powertrain na F1, devido ao sucesso dos 312T da Ferrari, Bernie Ecclestone contactou a Alfa Romeo para fornecer motores para a Brabham. a Alfa então projetou um motor plano-12 seguindo as regras da F1, a Brabham utilizou esse motor de 1976 a 1978, tendo arrematado um vice campeonato de construtores em 1978. O saudoso piloto José Carlos Pace, o Moco, foi um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento dos Brabham BT45 Alfa Romeo, ele trabalhou com muita dedicação para fazer carro e motor se tornarem um conjunto competitívo, conseguiu isso no início de 1977, mas então o acidente de Atibaia o levou...

Pace e o BT45 Alfa Romeo na Flugplatz - Nurburgring 1976


O motor plano 12 cilindros também foi utilizado nos carros de Esporte Protótipo da Alfa Romeo, e conquistaram o título de 1975 com o Alfa Romeo 33 TT 12.
O Boxer 12 Alfa Romeo

Em 1979, após o projetista do Plano 12 a Alfa Romeo, Carlo Chiti muito insistir com o comando da montadora milanesa, recebeu a autorização de reiniciar as atividades da marca na F1 como equipe completa através da Autodelta.

Alfa Romeo 177


Foi então projetado o Alfa Romeo 177, logo nos primeiros testes o carro que levava o motor plano 12 se mostrou lento e pesado. Então um segundo carro foi plojetado o Alfa Romeo 179 que levava um motor Alfa Romeo 12 cilindros em V a 60º, esse motor V12 também foi utilizado pela Brabham em 1979 no Brabham BT48. O motor em V que substituia o plano 12, permitia a adoção de design mais eficiente do assoalho, proporcionando mais downforce através do efeito solo.

Alfa Romeo 179


O Alfa Romeo 179 correu as temporadas de 1979, 80 e 81. À partir de 1982 a construção dos carros de F1 da Alfa Romeo passou da Autodelta para a Euroracing, cabendo a partir daí somente o fornecimento de motores pela Autodelta. Em 1983, em substituição ao V12 é lançado o V8 1.5L sobrealimentado por 2 turbocompressores.

Alfa Romeo 182 V12


Com a Alfa Romeo em crise financeira, a equipe de F1 é extinguida ao fim de 1985, todavia um acordo entre o time de F1 de Guy Ligier e a Alfa Romeo é firmado para o fornecimento de motores. Provavelmente já mirando o novo regulamento de exclusão dos motores sobrealimentados para a 1989 a Alfa Romeo projetou o motor que é o tema desse post, o V10, que nunca rodou em um carro de F1 devido à venda da Alfa Romeo a FIAT.

Ligier JS29 com o motor Alfa Romeo Turbo I4


Quanto a Formula S, idealizada pela FIA e Bernie Ecclestone, nunca passou do protótipo 164 Procar construído pela Alfa Romeo.

ABARTH SE047 - o LC2 com motor Alfa Romeo V10

O motor V10 da Alfa Romeo ainda foi cogitado para equipar um carro de Grupo C que a Alfa Romeo estava desenvolvendo para 1989 o SE048. ainda como parte do desenvolvimento para o projeto da Alfa Romeo no Grupo C, criou-se um muletto, que consistia na instalação do motor Alfa Romeo V10 em um Lancia LC2 Grupo C, que originalmente era equipado com motor V8 Bi turbo,  baseado no motor da F40. Porém o engenheiro da Abarth Claudio Lombardi preteriu o V10 em favor dos V12 Ferrari utilizados na F1. De qualquer forma o projeto do carro de Grupo C da Alfa Romeo foi cancelado em favor do desenvolvimento dos alfa 155 para o CIVT e posteriormente para o DTM.

O Alfa Romeo Grupo C

Hoje tanto o motor V10 quanto o Alfa 164 Procar estão no Museo Historico Alfa Romeo em Arese.

Abraços a todos.

3 comentários:

Guilherme Jardim disse...

Sensacional!!!
Parabéns pela pesquisa e divulgação!
Gde abc.
Guilherme Jardim

Anônimo disse...

Muito bom, esse é o cara que sabe tudo de autos, fromula 1 e motores.......

Allan Godinho disse...

Malfita e motores e alfa…é tudo a mesma coisa! Da hora o blog!

Abração!